segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

NOSTALGIA

Vou falar do dia em que te vi pela janela de um ônibus, uma das últimas vezes que contemplei seu rosto; apesar dos poucos segundos, esta é uma das lembranças mais vivas que guardo em minha memória; só deus sabe a saudade que sinto de você, só eu sei a dor que sua ausência causou e ainda causa em mim, apesar dos muitos anos já passados, gostaria de poder voltar atrás no tempo e consertar o que não estraguei e refazer o que você fez questão de estraguar.

Não me lembro da data exata, mas sei que era uma sexta-feira, final de tarde, o sol descansava longe, prestes a deixar a noite tomar conta da minha vida; eu estava com meus recem completados 18 anos, estava indo para minha casa, sentia-me cansada pela semana exaustiva, mas estava feliz pela chegada do final de semana; a linha do ônibus que eu pegava para ir embora passava pelo centro da cidade, em frente a praça coronel Virgílio, na rua Quinze de Novembro; e lá estava eu, sentada no banco de um ônibus com minha cabeça deitada sobre a janela, com meus olhos longe, entorpecidos pela agitação da cidade, onde nada me chamava atenção, até aquele momento; foi quado avistei, mesmo de relance, um rosto conhecido, voltei meus olhos rapidamente e lá estava você...   em pé, falando em um telefone público, com um sorriso lindo, e uma euforia contagiante de alguem que espera muito de uma sexta-feira a noite. Uma pontada súbita em meu peito, fez com que um calafrio percorresse minha nuca, afinal de contas, já fazia meses que você saíra da minha vida, mas a ferida deixada, ainda estava fresca e pulsava de tal forma, que não consegui tirar meus olhos de ti; até hoje não entendo como apenas alguns segundos, são capazes de se tornarem eternos em nossas vidas, eu sei que foi apenas o prazo de dois ou três passageiros descerem do ônibus naquele ponto, mas foi o bastante para saber naquele momento, em um cruzar de olhares, o evidente amor, a insuportavel paixão que eu ainda nutria por você, e o mais doloroso foi constatar a indiferença em seus olhos, o desdenho do seu sorriso ao me ver, me senti mortalmente ferida, como em uma pintura antiga em que retrata a superioridade do cavaleiro sobre a cabeça do dragão.

Acho que esta lembrança me marcou, pelo fato de descobrir, ou melhor, aceitar que o que existiu entre nós, havia acabado, e que você nunca mais voltaria para mim; a certeza que tenho, é a de que deste dia em diante, me tornei mais triste, deixei de acreditar nas pessoas e passei a tratar o mundo, com uma ironia quase amarga, e como não poderia deixar de ser; desejei tudo que existe de mais ruim, podre e perverso, recaísse sobre sua cabeça; pois só assim, conseguiria eu, continuar em frente.  

2 comentários:

  1. Você tem HIV?
    Se sim, como é a vida com ele?


    Obrigada

    Ana Paula

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  2. A doença que tenho não é segredo para ninguém, afinal de contas, é mais provável que eu morra de velhice do que por ela. Só não gosto de rótulos como HIV, CÂNCER, HEPATITE C, SÍFILIS, GONORREIA, LEPRA OU AIDS.

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